na cama. Viro para um lado, viro para o outro. Fecho os olhos, sinto-te mexer. Faço-te um carinho. Procuro novamente uma posição confortável- não consigo.
Após algum tempo consigo adormecer, estou a sonhar e acordo de repente com um som estranho mas que parecia vir de dentro de mim: "Ploc"- como se uma bolha tivesse rebentado. Sinto-me molhada. Levanto-me, acordo o B.- "É agora!". Ele responde "Até que enfim!". Não tinha ainda 38 semanas.
Passo uma água no corpo, visto-me, fecho as malas, descemos calmamente para a garagem. Sinto um nervoso miudinho. Estava à espera daquele momento há meses mas tudo parecia irreal.
Nada de dores, nada de nada. Tudo normal, excepto as águas rebentadas.
No hospital fui atendida por uma enfermeira nada simpática, segue-se outra e outra...Até que vou para uma sala, deitada, a soro e outras coisas mais que nem sei o que eram,o ctg, não me podia mexer que o aparelho estava avariado e deixava de funcionar. Virada de lado, quase só podia respirar.
No fundo do quarto um relógio: meia noite. Ao lado uma pequena poltrona onde o B. se sentou. Ali ficamos, ninguém nos dizia nada. As horas passavam, as dores aumentavam, ninguém dizia nada, ninguém vinha ver como estava. Perguntam-me se quero epidural, pois claro que quero, que já estava a ficar insuportável. O anestesista chega, mal humorado porque "(...)as grávidas deidiram vir todas hoje" e "(...)até era dia de folga dele". Entre queixas da chefe que não gostava dele, queixas de que aquele sistema da epidural era novo e nunca tinha dado e não gostava dele, e nem sabia como funcionava, lá espeta a agulha e "Ora bolas que não ficou bem" e lá espeta outra vez. Aproveita para mandar umas piadinhas à enfermeira que o estava a assistir, e lá vão felizes da vida. As dores melhoram ligeiramente, mas por pouco tempo. Onde está o céu que me prometeram??? Dores, dores e dores. Não choro, não grito, gemo, o mais baixo possível, porque o silêncio parece que me aumenta ainda mais a dor. Cada vez dói mais e ninguém vem ajudar-me. Sinto-me mal, vomito, chama-se a enfermeira, lá vem e diz que está quase. Eu digo que já não aguento as dores, ela espantada diz que dá outro reforço da epidural. Dão e levam-me para a sala de partos....não foi a tempo. A bebé começa a querer sair, sinto-me sem forças, não sinto a vontade de fazer força de que tanto falam. Tenho medo de não conseguir. Minutos que parecem horas, não sai, outra enfermeira ajuda a descer a bebé ao mesmo tempo que puxo....8h27m nasces. A médica pega em ti e leva-te para uma mesinha mesmo ao lado para ver se estavas bem. não choras, mas sei que estás bem. Os teus olhos estão abertos, muito abertos a ver tudo o que te rodeia. Vestem-te e dão-te ao teu pai. Ele pega-te com um sorriso como nunca vi na cara dele. Admiro-me com o à vontade com que te pega. Ele traz-te para junto de mim enquanto me cosem. A epidural não fez efeito, não me deram anestesia para dar os pontos, estou a senti-los, um a um, mas incrivelmente anestesiada pela tua beleza. Chamo por ti, digo que é a mamã e logo olhas para mim, à minha procura. Nunca mais me vou esquecer dos teus olhos a procurarem-me. Por muito que tente descrever não consigo exprimir os sentimentos que envolveram aquele momento.
3,040Kg e 47cm de gente- finalmente nos meus braços, a mamar, junto de mim.
Estavas ali, eras mesmo tu, linda de morrer.
Sou mãe.